A table !!

« Je savais bien comment j’étais faite, et j’étais consciente de la matérialité brute de mon corps, mais pendant une grande partie de ma vie, je ne lui avais guère accordé d’importance. J’avais grandi avec les vilains vêtements cousus par ma mère, en n’ayant qu’une paire de chaussures à la fois et ne me maquillant qu’en de rares occasions. Ces dernières années, j’avais commencé à m’intéresser aux modes et à former mon goût sous la houlette d’Adèle, et à présent je trouvais amusant de me faire une beauté. Mais il m’arrivait parfois – surtout lorsque j’avais soigné mon apparence non seulement pour faire bonne impression en général, mais pour un homme en particulier – de trouver cette cuisine (c’était le mot) quelque peu ridicule. Tous ces efforts et ce temps passé à me camoufler alors que j’aurais pu faire autre chose ! Les couleurs qui me vont bien et celles qui ne me vont pas, les modèles qui m’amincissent et ceux qui me grossissent, la coupe qui me met en valeur et celle qui me dévalorise. Des préparatifs longs et coûteux me réduisant à être comme une table dressée pour l’appétit sexuel du mâle, comme un plat bien cuisiné pour que l’eau lui vienne à la bouche. Et puis l’angoisse de ne pas y arriver, de ne pas paraître belle, de ne pas être parvenue à cacher avec habileté la vulgarité de la chair, avec ses humeurs, ses odeurs et difformités. »

 

Elena Ferrante, Celle qui fuit et celle qui reste

Musique : Leonore O’Malley – First Be A Woman

Mon jardin dévasté

De ma fenêtre, je vois notre jardin
Dévasté
Où sont les fleurs, les arbres et les forêts ?
J’ai le blues du béton, du bitume, du macadam,
Froid et sans âme.
Main dans la main, âmes sœurs cœurs chauds
Nos pas étaient légers, nos
réveils tôt,
tendres et toastés.
Le Temps d’attente trop long pour tomber l’un dans l’autre…
De nos mots simples, ton sur ton
Voix timbrée, soufflée de la quarte à la huitième,
Jusqu’à cette épreuve qui nous ne laisserait pas indemnes
Dans cette course symphonique
En plein mouvement,
Les musiciens ont petit à petit,
quitté la scène…
Cacophonie, assourdissante…
Mes oreilles saignent de tes mots
Qui giflent un violent Larsen
Âmes en peine,
Polyphonie de désaccords,
Peu importe
Aucun de nous, Je te promets,
N’aura raison ou tort.

14 novembre 2016
Nathalie Soares

 

Essa gente

Musique : Luiz Gonzaga Jr – Uma Família Qualquer

 

Os Pobrezinhos

« Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

– Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

– O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis »

págs. 119 a 121 (1ªedição)
Livre de chroniques d’Antonio Lobo Antunes